Reunião entre a Secretaria Municipal de Educação e representantes da futura Casa de Cultura Hip Hop abre caminho para a formação de educadores, valorização dos artistas locais e fortalecimento da educação antirracista
Mongaguá iniciou uma nova etapa na aproximação entre cultura, território e educação. Em reunião realizada no dia 15 de setembro, na sede da Secretaria Municipal de Educação (Seduc), foi formalizada a adesão da rede municipal ao Programa Escola Nacional de Hip Hop, iniciativa coordenada pelo Ministério da Educação (MEC).

O encontro contou com a participação da secretária municipal de Educação, Maria Marta Soares, de coordenadores e gestores da pasta e de representantes da futura Casa de Cultura Hip Hop de Mongaguá.
A reunião tratou das possibilidades de incorporar as pedagogias, os conhecimentos e as manifestações do Hip Hop às práticas educacionais da rede municipal. A proposta não pretende substituir os conteúdos curriculares, mas utilizar linguagens como rap, slam, DJ, breaking, graffiti, audiovisual e produção cultural como instrumentos de aprendizagem, expressão, pertencimento e participação dos estudantes.

Criado pelo Governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e coordenado pelo Ministério da Educação (MEC), o Programa Escola Nacional de Hip Hop integra um conjunto de políticas voltadas à educação inclusiva e antirracista. A iniciativa busca incorporar a cultura Hip Hop como instrumento didático-pedagógico, apoiar a formação continuada de professores, gestores e agentes culturais e fortalecer a aplicação das leis que determinam o ensino da história e das culturas afro-brasileira, africana e indígena na Educação Básica.
Cultura produzida no território
A articulação em Mongaguá parte do entendimento de que a implantação do programa precisa reconhecer quem já produz cultura, conhecimento e educação nos bairros da cidade.
A futura Casa de Cultura Hip Hop de Mongaguá propõe, como primeira etapa, a realização do Mapa Hip Hop Mongaguá, destinado a identificar MCs, DJs, grafiteiros, breakers, poetas, produtores culturais, comunicadores, arte-educadores, pesquisadores, coletivos, projetos sociais, espaços culturais e instituições interessadas.
O objetivo é conhecer as pessoas, experiências e competências existentes no município antes da elaboração de uma programação permanente. Esse levantamento poderá resultar na criação de uma rede municipal de agentes da cultura Hip Hop, preparada para colaborar com escolas, projetos sociais, equipamentos culturais, oficinas e ações formativas.
A proposta está estruturada a partir de quatro movimentos: mapear, formar, conectar e transformar.
Depois do mapeamento, a intenção é desenvolver ciclos de formação para artistas, agentes culturais, professores e gestores. Entre os conteúdos previstos estão história do Hip Hop, educação antirracista, metodologias de oficinas, produção musical, poesia, dança, artes visuais, comunicação, audiovisual, economia criativa, elaboração de projetos e direitos culturais.
A construção envolve a articulação entre C3H2B, Instituto Amar e Núcleo Educafro Mongaguá, além da participação de agentes, educadores, artistas, coletivos e instituições que poderão contribuir com o desenvolvimento da futura Casa.
A utilização da palavra “futura” reafirma que o projeto ainda está em construção e continua aberto à participação de pessoas e organizações que desejem colaborar. A Casa não é apresentada somente como um espaço físico, mas como uma rede formada por pessoas, memória, conhecimento, formação e articulação territorial.
“A aproximação entre os agentes culturais de Mongaguá e a Secretaria Municipal de Educação abre uma possibilidade muito importante: fazer com que a cultura produzida no território também esteja presente na formação dos nossos estudantes e professores. É uma construção conjunta, em que o Hip Hop deixa de ser visto apenas como manifestação artística e passa a ser reconhecido também como conhecimento, linguagem e ferramenta para uma educação integral e para uma leitura crítica do mundo”, afirmou Nikaia, pedagoga, jornalista, artista e gestora cultural.
Para Renato Azevedo, representante da Produção Preta e do Fórum do Hip Hop do Litoral Paulista e Vale do Ribeira, a iniciativa também poderá fortalecer o vínculo entre os estudantes e a escola.
“A cultura Hip Hop poderá auxiliar estudantes, professores e gestores no aprimoramento do ensino, ampliar o interesse de adolescentes e jovens, contribuir para o enfrentamento da evasão escolar e fortalecer a participação comunitária nas escolas. Acreditamos que a Escola Nacional de Hip Hop é um programa criado para valorizar uma educação viva e de qualidade”, afirmou Renato.
Educação antirracista e protagonismo estudantil
Durante a reunião, também foram discutidas as possibilidades de o Hip Hop contribuir para a valorização da cultura afro-brasileira, das comunidades quilombolas e indígenas e das contribuições da população negra para a formação histórica, cultural e social do Brasil.
“A presença do Hip Hop nas escolas fortalece o reconhecimento da cultura negra, combate o racismo e valoriza conhecimentos que durante muito tempo foram invisibilizados. Para o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, essa construção precisa garantir o protagonismo da população negra e dos agentes culturais do próprio território”, destacou Cininha, representante do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Mongaguá.
Na avaliação de Willians Bezerra, coordenador-geral do Núcleo Educafro Mongaguá, a iniciativa também contribui para que crianças e jovens se reconheçam como parte da história e como sujeitos capazes de transformar a própria realidade.
“O Hip Hop sempre foi espaço de formação, consciência e resistência. Sua aproximação com as escolas fortalece a educação antirracista, valoriza os conhecimentos produzidos nas periferias e permite que crianças e jovens negros se reconheçam como parte da história e como protagonistas do próprio futuro”, destacou Willians.
“A adesão a esse programa do Ministério da Educação é um marco fundamental para a nossa rede de ensino. Mais do que uma manifestação artística, o Hip Hop é um instrumento pedagógico de inclusão, identidade e cidadania. Trazer essa linguagem urbana nos permite dialogar diretamente com a realidade dos nossos estudantes, fortalecendo nossa política de educação antirracista e valorizando a rica diversidade cultural do município”, afirmou a secretária municipal de Educação, Maria Marta Soares.
A reunião foi articulada pela professora Jeniffer Antônia de Souza, coordenadora de Artes da rede municipal.

O debate está alinhado ao Decreto Federal nº 11.784, de 2023, que reconhece o Hip Hop como manifestação da cultura nacional. A norma estabelece como elementos estruturantes o DJ, o breaking, o MC, o graffiti e o conhecimento, além de incentivar formação, intercâmbio, geração de renda, ações afirmativas e apoio aos espaços dedicados à cultura Hip Hop.
Implantação poderá começar de forma gradual
Entre os caminhos discutidos para a consolidação da proposta está a construção de uma implantação gradual, com formação dos profissionais envolvidos, definição de metodologia, participação dos artistas locais e acompanhamento dos resultados.

Um possível projeto-piloto poderá permitir que a rede municipal avalie a experiência antes de sua ampliação. Entre os resultados que poderão ser acompanhados estão a participação dos estudantes, o envolvimento das famílias, a produção artística, a formação dos professores, o fortalecimento do pertencimento e a presença de agentes culturais dos diferentes bairros.
A proposta da futura Casa também prevê que as atividades sejam adequadas às diferentes faixas etárias. Para as crianças, as ações poderão priorizar ludicidade, musicalização, ritmo, desenho, dança e pertencimento. Com adolescentes, o trabalho poderá envolver expressão, cidadania, enfrentamento ao racismo, projeto de vida e participação. Para os jovens, a perspectiva inclui formação profissional, produção cultural, acesso a editais, geração de renda e atuação como artistas-educadores.
Outro eixo em construção é a preservação da memória local, com registros de histórias dos bairros, artistas, moradores antigos e transformações vividas no território. Essa produção poderá resultar em podcasts, vídeos, exposições, fotografias, letras, documentários e encontros entre diferentes gerações.
Possibilidade de referência regional
A expectativa é que Mongaguá possa construir uma experiência própria, conectando o Programa Escola Nacional de Hip Hop à realidade do município e valorizando os conhecimentos produzidos nas comunidades.
Por sua localização na Baixada Santista, a cidade também poderá estabelecer intercâmbios com iniciativas de Itanhaém, Peruíbe, Praia Grande, São Vicente, Santos, Cubatão, Guarujá e outras regiões do país.
A adesão ao programa representa o começo de um processo que ainda exigirá planejamento, formação, participação comunitária, definição de responsabilidades e diálogo permanente entre a Educação e os agentes do Hip Hop.
O primeiro passo, entretanto, já foi dado: reconhecer que a cultura criada nas periferias também produz conhecimento e pode colaborar diretamente com uma educação pública mais inclusiva, antirracista e conectada com a vida dos estudantes.
Fotos: Jonas de Morais



